segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Indaiatuba: o Havai não é aqui


Quem conhece, freqüenta e acompanha de perto a administração de Indaituba, não se surpreendeu com a colocação da cidade em primeiro lugar no Índice Firjam de Desenvolvimento Municipal, criado pela Federação das Industrias do Rio de Janeiro para medir anualmente a eficiência de políticas públicas em municípios brasileiros. Indaiatuba tem um plano diretor de 20 anos que vem sendo seguido por diferentes prefeitos.Tem um Plano Decenal de Educação tocado por um grupo que atua junto há mais de duas décadas, sobrevivendo bem às mudanças de prefeitos ou partidos no poder. A cidade destina à saúde 22% do Orçamento e 26% a Educação, mais do que o exigido pela Lei. As crianças recebem 10 mil horas de aulas, dos 3 meses aos 10 anos de idade e há prêmios para professores cujos alunos se destacam nas avaliações.Mais de 2 mil laptops são usados pelos alunos e o total vai passar dos 2 mil até o ano que vem. Grandes empresas instaladas na
cidade (Unilever,Toyota,Mann, Metaleve), são “motivadas” pelo prefeito Zé Onério a investir na produção artística local.Recentemente o Zé inventou um desafio: chamou 10 mil pessoas para plantarem 50 mil árvores em 45 minutos. Conseguiu. Mas apesar disso tudo a população de Indaiatuba não está satisfeita: Zé Onério não é candidato à reeleição.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Porre na TV local


Ontem, durante o horário nobre, a TV Thathi reprisou por mais de três horas sessões da Câmara Municipal realizadas no primeiro semestre do ano. Ao mesmo tempo, outra “educativa”, o Canal 9, exibia pela enésima vez um fatídico “Viva Noite Ribeirão”, onde um rapaz com um microfone nas mãos, uma câmera às costas e nenhuma idéia na cabeça, visitava a casa de um esotérico com cara de Mãe Dináh. Em outra emissôra,Canal 20 Net, ao som de bate estaca, uma patricinha circulava pela noite entre celebridades locais e outros alienados bêbados fazendo perguntas imbecis. Quem assistiu a programação local ontem, mesmo sem beber, evitou sair de casa depois, com medo de não passar pelo bafômetro da PM. Um porre que, com certeza, vai se repetir hoje, amanhã, sempre... Ou até quando o Ministério Público resolver tomar providências. Afinal, concessão para emissoras educativas, devem obedecer algum critério mínimo. Hoje sabe-se que qualquer mentecapto com dinheiro pode comprar horários e virar “repórti”. É o Brasil. É Ribeirão Preto.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Pergunta do dia


Na Folha de hoje, Gilberto Gil anunciou sua saída do Ministèrio da Cultura.Ué... Gilberto Gil era Ministro?

Sobre comédias e tragédias


Matérinha postada aqui no dia 28 de julho provocou várias manifestações. Entre outras um anônimo disse:
“Como o comentário da postagem anterior "Carta ao Pinto" estava desabilitado, venho agora manifestar minha opinião e espero que seja publicada e não censurada.
Como posso entender uma crítica a tudo que venha ferir a "carta de princípios" desta instituição, se ao entrarmos na mesma nos deparamos com a divulgação de uma SitCom(Situação de COMÉDIA) aos moldes, nada engajados, norte-americanos, produzida e patrocinada pela mesma? Paradoxos...”

*A postagem do anônimo comentarista já está publicada e vale esclarecimento: o projeto “Os Inquilinos”, desenvolvido através de idéia do ator Matheus Gherardi, com textos escritos por Rodrigo de Oliveira, só irá à cena se atender aos princípios da Ribeirão Em Cena. Os originais enviados pelo autor até agora, e com certeza desconhecidos pelo comentarista, atendem esses princípios, sim.
É preciso dizer mais. A Ribeirão Em Cena nada tem contra comédias. Molière, Tchékov e até Brecht escreveram comédias memoráveis com forte conteúdo político e social. Ano passado, com direção de Samantha Calsani, a RC apresentou “O casamento do Pequeno Burguês” (foto) sem nenhuma restrição. Ainda no repertório do RC vamos encontrar, entre dezenas de outras, montagens cômicas tais como: “Faustino”, de Eliane Ganem, “A Sina de Juvenal” e mais recentemente “A história de João Curió, todas na linha divertida e engajada do teatro de cordel.
Também não temos nada contra a comédia norte americana que deu ao mundo a genialidade de ninguém menos que Charles Chaplin.
É bom esclarecer ainda, que no folder de “Os Inquilinos”, que enviamos a possíveis patrocinadores, justificamos o projeto da forma que se segue: “Trata-se de um projeto que visa valorizar a encenação de textos nacionais inéditos, de autores inéditos não consagrados, que revelam abordagem crítica e social, possibilitando ao teatro cumprir suas funções estéticas além da função socializadora e pedagógica da comédia”.
A restrição que a RC faz, e a faz com firmeza, é em relação ao besteirol inconseqüente que transforma o palco do teatro brasileiro em salão de churrascaria. Assim esclarecido reitero tudo que escrevi na postagem do dia 28 agradecendo a atenção do comentarista, que apesar da falta de coragem para assinar o que escreve, é sempre bem vinda.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Os verdadeiros heróis


Aqui bem perto de casa,num lugar onde eu passo toda hora,tem um vendedor ambulante com um tabuleiro, onde são vendidos todo tipo de docinhos.Tem brigadeiro, de ovos caramelados, outros com nozes picadinhas em cima, enfim todos aqueles de aniversário de gente rica - e são uma delícia. Sabe quanto custa cada um? Um real. Aí, fico pensando: tem a mulher que faz os doces, e o material:ovos, açúcar, o chocolate granulado,as nozes,e ainda o papelzinho de celofane em volta de cada um. Um filho ou um amigo sai provavelmente lá do subúrbio, toma um trem, depois um ônibus, paga as passagens, monta sua mercadoria na Visconde de Pirajá e lá fica o dia inteiro,vendendo seus docinhos.
Mas este vendedor tem que almoçar, tem que ir ao banheiro; como é que ele faz? E se não vender todos, voltar para casa com o que sobrou? E se vender, quanto deve gastar em cada um? Um nada, claro: a R$ 1 cada um, o lucro não pode ser muito alto, até porque a quantidade de docinhos não é tão grande assim. Como é que eles fazem?
Como é que fazem as pessoas muito pobres? Fui comprar outro dia um colírio na farmácia e paguei R$ 25. Gente pobre também tem conjuntivite, dor na coluna, tosse, resfriado. Se uma criança cai, tem que botar mercúrio cromo, Band-aid.
O lucro dos docinhos não deve dar para essas mínimas coisas que precisamos comprar a toda hora e nem estou falando de comida. Aquela sandalinha de borracha que se usa para ir para a praia não chega a ficar gasta e já damos para a empregada. A delas já está fininha, de tanto ser usada. E quando faz frio?E quando a criança cresce e a caminha não serve mais? E o olhar dessas crianças desejando um brinquedo, o mais modesto deles, e não podendo ter? É duro pensar nessas coisas.
E mais duro ainda é pensar que quando uma dessas crianças nos pede um trocado, a gente passa direto, sem nem olhar, tantas elas são, até para não ter que abrir a bolsa, tirar a carteira e dar R$ 5 que não nos fariam falta. É duro pensar nas coisas que a gente deixa de fazer por negligência, preguiça, e nas quais não pensamos nem tomamos o menor conhecimento, sobretudo pelo hábito de ver isso acontecer o tempo todo, em cada esquina.
É duro, pensar que somos assim.
E quando uma empregada nos pede um dinheiro adiantado, R$50 ,R$100, e que no fim do mês temos a coragem de descontar, “para que elas não abusem”, R$100 que se gasta comendo um shushi ou comprando uma sombra de olhos e um batom, não dá vergonha.
Por coisas como essas e muitas mais, por mais que nossa vida esteja correndo bem, tem algo lá dentro que aperta o coração, que não se identifica, que não se sabe o que é, mas que nos impede se ser totalmente felizes-a não ser que se seja um Daniel Dantas ou um Naji Nahas.
Qual será o lucro da mulher que faz docinhos? E os dos ambulantes que vendem panos de prato na porta dos supermercados, do pipoqueiro na porta do cinema, do homem que vende coco na praia? Quanto será que eles conseguem ganhar por mês para sustentar mulher e dois filhos?
Sabe o que eu acho? Que são uns heróis.
E nós, francamente, nem sei o que somos

Esta crônica assinada por Danusa Leão foi publicada na Folha, domingo. Preciso dizer mais alguma coisa?

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Carta ao Pinto


Caro Alberto Pinto,

Recebi hoje, pela manhã, teu e-mail sugerindo ao Ribeirão Em Cena a produção e realização de uma mostra de comédias.Ao mesmo tempo abro o jornal e leio que duas crianças morreram queimadas em uma favela da cidade. O barraco pegou fogo quando a maior, com 10 anos, esquentava a comida para a menorzinha, de 4 anos. Ribeirão Preto tem hoje perto de 30 favelas. Crianças passando fome. Outras tanto, como burros de cargas, puxam carroças pela cidade a procura de lixo reciclável.Diante deste quadro, e de teu e-mail, fiquei em dúvida: Brecht ou Dercy Gonçalves? Pensei: será que tenho estômago para rir destes tempos sombrios?


É verdade, eu vivo num tempo sombrio!
Uma palavra sem malícia é sinal de tolice.
Uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ri
Ainda não recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
Falar sobre árvores é quase um crime
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que atravessa a rua tranqüilo
Já está inacessível aos amigos
Que passam necessidades?

É verdade: eu ainda ganho bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso.
Nada do que faço
Me dá o direito de comer quando tenho fome.
Estou sendo poupado por acaso.
(Se a minha sorte me deixa, estou perdido.)

Me dizem: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que eu posso comer e beber
Se a comida que como, tiro de quem tem fome?
Se a água que bebo, faz falta a quem tem sede?
Mas mesmo assim, eu como e bebo.

Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Se manter afastado dos conflitos do mundo
E passar sem medo
O curto tempo que se tem para viver;
Seguir seu caminho sem violência;
Pagar o mal com o bem;
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim!
É verdade, eu vivo num tempo sombrio!

Eu vim para a cidade no tempo da desordem
Quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta
E me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a Terra.

Eu comi o meu pão no meio das batalhas.
Para dormir, eu me deitei entre os assassinos.
Fiz amor sem muita atenção
E não tive paciência com a Natureza.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado dado viver sobre a Terra.

No meu tempo as ruas conduziam ao lodo,
E as palavras me denunciavam ao carrasco.
Eu podia muito pouco, mas o poder dos patrões
Era mais seguro sem mim, espero.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado dado viver sobre a Terra.

As forças eram limitadas.
O objetivo permanecia a uma longa distância.
Era nitidamente visível, mas para mim
Quase fora do alcance.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado dado viver sobre a Terra.

Vocês, que vão emergir
Das ondas em que nos afogamos.
Pensem, quando falarem das nossas fraquezas,
Dos tempos sombrios de que tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através das lutas de classes,
Mudando mais de país do que de sapatos,
Desesperados quando só havia injustiça
E não havia revolta.

Nós sabemos:
O ódio contra a baixeza
Também endurece o rosto;
A cólera contra a injustiça
Também faz a voz ficar rouca.
Infelizmente nós,
Que queríamos preparar o terreno para a amizade,
Não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.

Mas vocês, quando chegar o tempo
Em que o Homem seja amigo do Homem,
Pensem em nós
Com simpatia.
(Aos que vierem depois de nós
Bertolt Brecht )

Tem mais, meu caro Alberto:Você que passou pelo Ribeirão Em Cena deve conhecer nossa carta de princípios. Nada temos contra a comédia, mas sabes, que priorizamos fidelidade a um teatro engajado e compromissado com a transformação da sociedade.É claro que podemos usar a comédia para atingir nossos objetivos, sem dúvida. É nisso que a fidelidade se distingue da fé e, a fortiori, do fanatismo. Ser fiel, para o pensamento, não é recusar-se a mudar de idéia (dogmatismo), nem submeter suas idéias a outra coisa que não elas mesmas (fé), nem considerá-las como absolutos (fanatismo); é recusar-se a mudar de idéias sem boas e fortes razões. E diante da miséria,da fome, e da falta de comediantes identificados com “ os que virão depois de nós” não encontro fortes razões para mudar agora.Não sou realmente o mesmo de ontem; sou o mesmo unicamente porque eu me confesso o mesmo, porque assumo um certo passado como meu, e porque pretendo, no futuro, reconhecer meu compromisso presente como sempre meu.Não há sujeito moral sem fidelidade de si para consigo. A fidelidade não é um valor entre outros,uma virtude entre outras:ela é aquilo por que,para que há valores e virtudes. Afinal que seria a justiça sem a fidelidade dos justos? A paz, sem a fidelidade dos pacíficos? A liberdade, sem a fidelidade dos verídicos.
É, meu caro Alberto, eu vivo num tempo de guerra e não consigo rir disto tudo...

Receba um grande abraço do amigo

gilson filho
corretor de ilusões

domingo, 27 de julho de 2008

Wilson Toni e a ingratidão


D. Leonor de Lencastre nasceu em Portugal em 2 de Maio de 1458 e por lá faleceu em 17 de Novembro de 1525. Foi princesa da casa de Avis e rainha de Portugal desde 1481 até 1495, pelo seu casamento com João II.Nunca pisou no Brasil e quando morreu a Colônia tinha apenas 25 anos.
José Wilson Toni nasceu em Vila Tibério-Ribeirão Preto. Foi jornalista, radialista e apresentador de TV. Exerceu os cargos públicos de vereador, Secretário de Estado e Deputado Estadual.Editava um jornal diário e apresentava o programa de TV "Clube Verdade".
Pode-se afirmar que Wilson Toni foi um dos maiores comunicadores do Rádio Ribeirãopretano, sendo que o seu programa diário na Rádio Clube AM tinha 80% da audiência na região, com os ouvintes participando ativamente, ligando para a Rádio e apresentando as suas reclamações.
Faleceu em 2 de Dezembro de 2005, vítima de um tumor cerebral.
Pode-se afirmar ainda que ninguém amou ou lutou mais por Ribeirão Preto que Toni e que ninguém foi mais amado pelos deserdados do que ele.
Entretanto Ribeirão Preto tem uma praça denominada Rainha Leonor de Lencastre (nada contra), mas nenhuma rua sequer ou viela com o nome de Wilson Toni. Na Wikipédia, Toni tem o mesmo destaque que Leonor. Mas por aqui...
Essa ingratidão deve-se a nossa nobre Câmara Municipal de Vereadores que bajulava o jornalista enquanto vivo.Na verdade, a maioria dos nossos nobres edis, detestava as verdades que Toni colocava no ar todos os dias e agora com o “esquecimento” vingam-se demonstrando pequenez, mesquinharia e pior, falta de compromisso com a história.
Tenham certeza que aqueles que conheceram Wilson Toni vão lembrar da sua história na hora de colocar o voto na urna.